Ateliê

Introdução de Maurice Druon

<i>Aro humano</i>, 1963. Têmpera, coleção privada, USA.
Aro humano, 1963. Têmpera, coleção privada, USA.

“Já foi dito e repetido que havia “o caso” Morgan-Snell, o que significa que nós nos questionamos a seu respeito, sem respostas. Como é possível que uma autodidata da pintura e da escultura - me pergunto também - como ela atingiu tal domínio dessas técnicas, esse conhecimento perfeito da anatomia, esta ciência magistral das composições, estas proezas de equilibrio, estas magníficas cores que lembram umas vezes o esmalte e outras vezes o vitral?

Antes de pintar um personagem vestido, Morgan-Snell começa por pintá-lo nu; e se a parte dianteira da cabeça de um cavalo deve aparecer no fundo de um de seus afrescos, ela desenha primeiro o cavalo inteiro antes de apagar-lo. É o método usado por Ingres. Mas como foi que ela a descobriu e sobre tudo, como foi que ela aprendeu a usar-la com tanta segurança?

Como é possível que suas mãos finas, lisas, delicadas, das quais poderiamos pensar que são de uma ociosa, como é possível que desse salão moldurado de uma casa da rive gauche, aonde ela instalou seu ateliê, podem sair esses quadros impressionantes tanto por suas dimensões que pela força ou assuntos?

O contraste entre a pessoa e sua obra, entre sua aparência cotidiana e suas criações, é muito forte para que não nos surprenda e diria quase até nos preocupe. Os contrastes absolutos coexistem por essencia e constituem para ela uma necessidade?” Trecho do prefácio do catálogo ecrito por Maurice Druon, membro da Academia francesa, Ministro dos assuntos culturais (1972/74), para a exposição na galeria Bernheim-Jeune (outubro-dezembro 1971)


As fontes de inspiração

<i>O Paraíso perdido</i>, Têmpera sobre tela, folha de ouro
O Paraíso perdido, Têmpera sobre tela, folha de ouro

Em sua obra Morgan-Snell escolheu glorificar o corpo humano, livrando-o de tudo que pode lhe dar um caracter temporal. Ela repõe o corpo no centro da arte, enquanto a abstração tem o maior êxito.

Em sua obra Morgan-Snell escolheu glorificar o corpo humano, livrando-o de tudo que pode lhe dar um caracter temporal. Ela repõe o corpo no centro da arte, enquanto a abstração tem o maior êxito.Durante sua infância no Brasil, ela observa a musculatura móvel dos operários ou dos mulatos que trabalham, pele despida, nas plantações, ao sol escaldante brasileiro. Ela vivia muito próxima da natureza. Ela considera que o animal tem um lugar importante junto ao homem e é representado em muito de seus quadros : os cavalos que eram seus companheiros de juventude, unicórnios, elefantes, touros. Os pássaros ocupam um lugar muito particular «  os pássaros, seus companheiros de trabalho, seus amigos, um pouco seus filhos  ». Ela procura em sua arte o que ela observava quando criança, o corpo humano sublimado pelo esforço físico.

Ela devora as histórias épicas : Homero, a Bíblia, Dante e Milton. Seu espírito se enche dos heróis da Fábula. Chegando na Europa, ela se exalta diante da obra de Michelangelo, o Tintoreto e Tiepolo, ela coleciona os cartões postais das obras desses artistas, guardados em albuns sempre prontos a serem consultados. Ela se serve da contribuição clássica para compor um hino a beleza das formas humanas em movimento, sublimação dos jogos musculares ritmados por uma sensualidade bíblica. A inspiração da artista é sempre acompanhada por um trabalho assíduo. Ela foi seu próprio mestre, mas verificou suas descobertas comparando-as com grandes quadros do passado.


<i>A Era de Bronze</i>, 1974. Oleo e tecnica mixta
A Era de Bronze, 1974. Oleo e tecnica mixta
<i>Cavalariças de Áugias</i>, 1975. Têmpera
Cavalariças de Áugias, 1975. Têmpera

O ateliê

Morgan-Snell trabalhando, em seu ateliê, sobre o painel <i>A Virgem ao Templo</i> para a Igreja da Trinité
Morgan-Snell trabalhando, em seu ateliê, sobre o painel A Virgem ao Templo para a Igreja da Trinité

Sua concepção de uma obra : « A idéia que surge na minha cabeça não se deixa captar sem esforço. Antes de poder expressar a imagem da visão que tenho numa tela, eu vivo uma fase de incubação quase sempre demorada e as vezes cruel. Lutando com uma energia fugaz para dominar a materia, chega o momento em que a obra ganha sua independência, conta sua história, irradia sua própria luz. Eu sinto então que ela já não me pertence mais e que ela está terminada ».

Perfeccionista, precisa, Morgan-Snell se documenta constantemente sobre o tema escolhido. Sua obra é essencialmente dedicada ao ser humano, seus quadros transcrevem sua importância, metade homem metade deus, ele terá que conquistar a natureza, dominar as forças sombrias.

Sua maneira de trabalhar : o ateliê é claro e luminoso. Pássaros passeam em liberdade. Morgan-Snell adora os pássaros : papagaios, periquitos, pardais vêm familiarmente se pousar no seu ombro quando ela trabalha. Seus cantos são músicas necessarias para trablhar : « elas me fazem entrar num tipo de transe favorável para a criação » explica a artista. No ateliê estam espalhadas maquetas e sobre os cavaletes, telas nas quais ele trabalha.

O modelo vivo : « Enquanto transpomos, idealisamos. Para mim, mm modelo é um ponto de partida. Começo assim a expressar uma idéia. O modelo é de uma certa forma um accessorio. Até hoje, um só modelo masculino e um só modelo feminino bastaram para realizar toda minha obra ».

Os personagens : « Titãs, Olimpienses com musculos de aço, mulheres em movimentos atleticos, crianças redondas », escreveu Gaston Villeberdeau sobre Morgan-Snell, obcecada pelo movimento, ela idealiza as massas, exalta as linhas que se juntam em uma profusão de atalhos constantes, perspectivas aereas onde se entrelaçam profano e sagrado. É uma pintura de escultura, o que explica o modelo imperioso, lírico dos personagens, os gestos que salientam os músculos, as posições contrastadas, árduas mas sempre harmoniosas.

Os personagens preenchem a tela de maneira quase compacta, é a grandeza do corpo humano que a artista quer transcrever e glorificar. Ele é valorizado por avalanches de flores e raios que tecem uma teia de fundo contrastada.

A idéia de fazer com que os corpos evoluem no espaço, como se eles flutuassem num universo livre das leis da gravidade, foi aplicada por Morgan-Snell em suas obras a partir de 1969. Segundo Morgan-Snell: «  As figuras que vocês encontram em algumas das minhas composições, livres da Terra e de suas servidões, desprendidas de toda contribuição material, levadas no fluxo e refluxo infinitos das coisas, como indicam as linhas cosmicas que enredam meus desenhos, essas figuras evocam o ser humano eterno, o ser humano emancipado e escorchado pela arte.


Composição, rascunho ao lápis
Composição, rascunho ao lápis
Composição em
Composição em

Os temas

<i>Os cavalos de Alcínoo, rei dos Fenícios</i>, 1966. Têmpera
Os cavalos de Alcínoo, rei dos Fenícios, 1966. Têmpera

Para a artista « a mitologia permite o contato entre o Humano e o Divino ».

Com seu temperamento, Morgan-Snell fica a vontade e em fase quando se inspira de alguns grandes contos épicos como os de Homero, de Dante ou de Milton, que desde criança lhe são familiares. A Odisseia lhe forneceu matérias para seus desenhos.É o caso da ninféia Calipso pintada sob a forma de uma jovem mulher de pele morena, com gesto elegante e sóbrio. Em outro lugar, Morgan-Snell evoca Ulisses amarrado ao mastro de seu navio para não ser atraido pelo canto das sereias. Os personagens mitológicos, que sejam Ulisses, Telêmaco, Alcinous, Nausica ou Calipso não são requisitados só para fornecer a ocasião de magnificar corpos bonitos, de homenajear a carne dourada dos guerreiros musculosos, essas figuras carnais também são simbolos.

Esses homens e essas mulheres com destinos prodigiosos representam o Homem e a Mulher através dos anos, das raças, dos meios, dos desejos, das felicidadese das dores. Os vários estudos com títulos diversos: Printemps, Nuits de Mai, Adolescentes, Esclaves au Soleil, Les Filles de Piabanha, La Force maternelle atestam a respeito a irresistível inclinação da artista para o simbolismo. Ilustrando as fúnebres alucinações de Dante em seu passeio no Inferno ou evocando sua ascensão ofuscante ao paraíso, Morgan-Snell não resguarda nem as descrições satíricas nem as meditações teológicas (ou teosóficas) do poeta. A Divina Comedia é um tipo de laboratório no qual a alma humana é submetida a todo tipo de angústias e emoções imagináveis. Nas cenas de Dante, Morgan-Snell dá a suas figuras un carater emblemático e humano.

Ela trata também de um tema bíblico, o de Adão e Eva que não deve nada a iconografia tradicional, Eva pega com uma mão uma fruta caída, e com a outra ela segura un círculo em volta do qual a serpente se enrola, círculo que simbolisa a perfeição dolosa prometida por Satanás. Seu rosto, com olhos fechados, parecendo apreciar interiormente uma ilusão, e dentro desse corpo que se deixa, sentimos uma Eva vacilante, já perdida. Ela manifesta um talento para aarte religiosa com quadros como La Piéta, La Tentation de Saint Antoine e Ave Maria e as pinturas murais da Trinité, La Présentation au temple et La Vierge à la Pentecôte.

<i>A Piéta</i>, 1974. Têmpera
A Piéta, 1974. Têmpera

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